terça-feira, maio 09, 2006

A «IDEIA DE EUROPA»...porque hoje é 9 de Maio!

Este é o título do último ensaio de George Steiner, publicado, entre nós, pela Gradiva.

Steiner é um pensador contemporâneo, judeu e "europeu". "Europeu", desde logo, porque o seu percurso de vida passou e passa pelos "quatro cantos" do velho Continente (e do mundo): nasceu e cresceu em Paris, filho de pais austríacos. Estudou nas Universidades de Paris, Chicago, Harvard, Oxford e Cambridge. Vive entre a Suiça e a Inglaterra.
Além disso, George Steiner assume-se também "europeu" - designadamente, neste seu ensaio - por uma espécie de opção afectiva e ideológica. Tão ideológica (sem deixar de ser igualmente afectiva) que esta sua «Ideia de Europa» mereceu um prefácio do institucionalmente europeu José Manuel Barroso.
Desde há algum tempo a esta parte, pelo menos, desde a institucionalização, em Maastricht, da União e com muita premência desde o último (grande) alargamento da Europa comunitária, envolto no chumbo (francês e holandês) à "Constituição" Europeia, o discurso oficial adoptado pelas Instituições passa pela divulgação de uma «Ideia de Europa». Uma ideia identitária, uma espécie de definição do que é a Europa que se quer construir. A «Ideia de Europa» (ainda que tópica, mas, sobretudo, clara e atraente) é um objectivo e uma necessidade política da integração europeia, principalmente, no seu estádio actual. Compreende-se, portanto, a oportunidade do gosto e da sensibilidade literárias do Presidente da Comissão.

Ora, Steiner estrutura a sua «Ideia de Europa» na herança que todos nós, os "europeus", recebemos de Jerusalém e de Atenas. Importaria - se bem que não seja muito oportuno, nem necessário, por enquanto - perguntar se neste "todos nós", beneficiários da herança/génese europeia, se incluem, também, os nossos vizinhos Turcos... E, precisamente, um dos traços definidores da Europa que Steiner nos faz notar é - citando Wiliam Blake - "a santidade do pormenor diminuto". Uma das características e riquezas do velho continente (sejam lá quais forem, em concreto, as suas fronteiras - por exemplo, para Steiner, Moscovo é já um dos subúrbios da Ásia) é precisamente a sua miríade de diferenças, detectada em aparentes pormenores (costumes, organizações e tradições sociais, económicas, até micro-climas, etc.) que, bem vistas as coisas, acabam mesmo por ser decisivos... pormaiores.

Essa "santidade do pormenor diminuto" (sobretudo, quando comparada com outros espaços e continentes) será o génio da Europa: "É o génio da diversidade linguística, cultural e social, de um mosaico pródigo que muitas vezes percorre uma distância trivial, separado por vinte quilómetros, uma divisão entre mundos" - escreve Steiner, salientando o contraste com a "terrível monotonia que se estende do ocidente de Nova Jérsia às montanhas da Califórnia, (...) aquela avidez de uniformidade". Talvez também por isso, por causa dos pormenores, "a Europa é feita de cafetarias, de cafés. Estes vão da cafetaria preferida de Pessoa, em Lisboa, aos cafés de Odessa, frequentados pelos gangsters de Isaac Babel", legitimando-se, por isso, um dos traços mais impressivos, para Steiner, desta Europa:
"Desenhe-se o mapa das cafetarias e obter-se-á um dos marcadores essenciais da «ideia de Europa»".

A falta de uniformidade (et pour cause, esse géniozinho europeu) também potencia, contudo, aquilo que de mau tem perseguido historicamente esta Europa; é apenas um dos lados da moeda (...europeia, do Euro que, curiosamente, não merece grande atenção, nem relevo, por parte de Steiner, nesta sua construção da identidade europeia!):
Assim, " os ódios étnicos, o nacionalismo chauvinista, as reivindicações regionais têm sido o pesadelo da Europa (...). A disseminação mundial da língua anglo-americana, a padronização tecnológica da vida quotidiana, a universalidade da Internet, são legitimamente considerados grandes passos rumo a uma eliminação de fronteiras e ódios antigos". E, acrescenta-se, sublinhando-se a incontornável atracção, a inolvidável referência americana, hoje em dia, da «Ideia de Europa»: "O sucesso fantástico do modelo americano, do seu federalismo que abarca distâncias imensas e climas diversos, apela á imitação. Jamais a Europa deverá sucumbir novamente à guerra intestina". Também por isto, estranha-se o esquecimento de Steiner relativamente a Roma. No rol daquela herença genética da Europa, da sua ideia e identificação, a par de Jerusalém e de Atenas, Roma terá também o seu papel. Quanto mais não fosse pelo engenhoso legado de pragmatismo e de integração que nos deixou - uma dimensão que nos falta, muitas vezes, a nós "europeus" contemporâneos (e, sobretudo, a nós "europeus portugueses").

As vias romanas aproximaram e integraram regiões, comunidades, povos, transpondo e quebrando eficazmente as fronteiras que ainda vão vigorando hoje em dia. É certo que o velho adágio popular não nos diz que todos os caminhos nos levam a .... Bruxelas; porém, apesar de tudo, não será assim tão grande a distância entre esta capital e Roma!