quinta-feira, abril 19, 2007

Cultura de Avaliação

Seremos um país ocioso, faltoso, incompetente? Tem-se repetido que há muito quem não trabalhe. Assim é. Há quem se arraste pelas repartições, quem faça ronha na iniciativa privada, quem produza cera até mais não, quem entre e saia dos serviços em sucessivos cafezinhos. Quem cochiche, diga mal do alheio, encane a perna à rã e o mais que se sabe...
Muitos responsáveis de organizações penam com o desperdício e ineficiência. E, tal como o fisco em muitos casos parece pressupor que cada contribuinte é um impenitente fraudador da lei, tendem a considerar que o trabalhador trabalha muito menos do que devia.
Devemos contudo distinguir. Há quem trabalhe muito, e bem. E todavia não seja premiado por tal: às vezes, muito pelo contrário.
Desde logo, devem afinar-se critérios de qualidade, conforme os tipos de actividade.
Se em empregos de produção ainda se poderá contabilizar o trabalho pelo critério quantitativo, é evidente que há actividades em que é ridículo pensar sequer no conceito de “produtividade” numérica.
Um excelente cientista pode trabalhar a vida toda, de dia e de noite (Kekulé descobriu a estrutura molecular do benzeno a sonhar), e não ter a felicidade de descobrir nada de novo. Um escritor pode encher durante anos resmas de papel e está no seu direito de, não gostando no final do resultado, lançar de um rompante tudo à fogueira. Um professor pode dar pulos no inferno com folies bergères pedagógicas e contudo não obter aprovações dos seus estudantes (que aliás seria fácil forjar, sendo ele a dar as notas, se trabalhasse para a estatística e para a popularidade).
A avaliação do desempenho profissional é muito complexa. Implica conhecimento profundo das tarefas em concreto e o seu enquadramento geral.
O enfermeiro não pode julgar o cirurgião; o polícia não pode avaliar o Juiz, ou o Ministro; o soldado raso não pode dar palpites sobre a estratégia do general: ninguém de categoria profissional inferior, por muito que se tenha guindado a poderes dentro das organizações, poderá jamais ser bom juiz em causa de quem lhe está acima. E a própria antiguidade conta. Além da qualidade curricular, mesmo em idêntica função e posto. Porque a experiência, quando enquadrada por habilitação de base, é insubstituível.
Avaliações por cientistas sociais “pára-quedistas” nas organizações também não são solução. Sem conhecerem os meandros da reputação e do prestígio, e as leis não escritas das profissões e até de cada categoria profissional, tenderão para critérios cegos. Seriam precisos muitos anos de investigação no terreno para descobrir e verbalizar o que são as regras por que se têm regido as carreiras, e outros tantos para propor normas escritas.
No caso da Universidade, que conheço melhor, a discrepância entre Faculdades é enorme – e em certos casos assim deve ser. O que se exige numas e noutras pode ser muito diferente. Uma tese em Pintura não é uma tese em Matemática. Também o currículo de um médico não tem nada a ver com o de um advogado, ou de um professor.
Estes exemplos são também metáforas: o mundo laboral é muito variado, e não chegam critérios abstractos para julgar. Menos ainda os interesses de poder e compadrio, camuflados de rigor científico.
Há pouca cultura da avaliação, em Portugal? Sim. Mas apenas falta cultura de avaliação rigorosa e formal. Informalmente, somos avaliadíssimos, todos, sempre. Porque entre nós há uma instalada cultura da má-língua, que nos julga na praça pública, e sem contraditório, todos os dias. Além da diuturna avaliação pelos poderes, que muitas vezes avaliam apenas a capacidade dos subordinados fazerem a corte.
Contra essa dupla arcana praxis, todos os mais briosos se defendem, procurando fazer o melhor possível. Segundo os critérios de normas não escritas, que julgam valerem.
Ora, antes de se implantarem definitivamente novas avaliações (na função pública, nomeadamente), seria importante que uma vasta equipa de sociólogos e psicólogos sociais, acompanhada e enquadrada por pessoas sábias e sérias de cada trabalho, fosse para o terreno. E fizesse primeiro o levantamento das regras que, não estando na lei, se encontram interiorizadas nos diversos subsistemas.
Regra de ouro: só pode haver castigo (ou cessação de prémio) se previamente forem públicas razoáveis regras do jogo.
Avaliação não poderá ser nem a política de tábua rasa dos teóricos, nem a acepção de pessoas dos pragmáticos poderosos.
De ambas só poderão resultar injustiça e descontentamento.

Paulo Ferreira da Cunha (hoje, n'" O Primeiro de Janeiro")